segunda-feira, 27 de março de 2023

"NO SILÊNCIO DA NOITE": HUMPHREY BOGART É UM ROTEIRISTA SURTADO DE HOLLYWOOD

   


     
    Egocêntrico, vaidoso, arrogante, explosivo e... violento. Assim já dá pra ter ideia do perfil do roteirista de cinema Dixon Stelle (Humphrey Bogart). Esse jeitão de "fio desencapado" ou "granada sem pino" é um problema na vida profissional e pessoal do sujeito. 
    Depois de fazer alguns roteiros de sucesso, o trabalho dele está igual a uma montanha russa. Até que surge a oportunidade de transformar um livro de sucesso (mas considerado popular, "literatura barata") em script de cinema. Mas a desconsideração dele por esse tipo de livro lhe dá uma ideia: Convidar uma secretária para ir (à noite!) na casa dele e contar a visão dela da história (afinal, a mocinha acabara de ler o romance). Mildred Atkinson (Marta Stewart) faz o relato e vai embora logo depois da meia-noite. Ele a despacha para um ponto de taxi depois de pagar pelo "serviço de leitura". 
    Problema é que a jovem é assassinada naquela noite. Quem matou Mildred Atkinson? O primeiro suspeito, claro, é Stelle. O temperamento explosivo e o comportamento violento o colocam na primeira fila entre os possíveis matadores. Sorte (ou azar?) dele é que a vizinha da porta em frente, Laurel Gray (Gloria Grahame) acaba se apaixonado por ele e se torna seu álibi. 
    A partir daí o bicho pega. Ou... começa a caçada gato-rato com os detetives e o delegado tentado descobrir se as desconfianças contra Dixon Stelle fazem ou não sentido.
    "No Silêncio da Noite" (1950) é um dos melhores exemplos do que se convencionou chamar de cinema noir (aqueles filmes de suspense policial) que existiu entre os anos 30 e começo dos 50. Não era exatamente um gênero (já que no entre guerras e o pós segunda guerra era um tempo de faroestes e de musicais na telona pra apresentar algo mais "leve" para os americanos), mas acabou virando uma categoria com a chegada dos diretores europeus que fugiam justamente das duas grandes guerras mundiais.
    O diretor americano Nicholas Ray também embarcou nessa aventura noir.  No comando de "No Silêncio", deu ótimas pinceladas de preto e branco ao filme.  Ele que um dia disse "o cinema é a melodia do olhar", compôs um grande personagem para Humphrey Bogart. Aquele jeitão melancólico e olhar blasé de Borgart está muito presente em Dixon Stelle.
    E Ray ((1911-1979) foi um diretor de muita criatividade, e também de muitas cores. Comandou outros sucessos que ajudaram a fazer a história do cinema americano: "Johnny Guitar" (1954), "Juventude Transviada" (1955), "Rei dos Reis" (1961) e "55 Dias em Pequim" (1963). Ao todo dirigiu 25 filmes.

* O filme está disponível no Now/Claro