Num supermercado, um segurança, que é meu conhecido, me confidenciou ao pé do ouvido:
"Nessa Copa, não vou torcer pelo Brasil. Se ganhar ou perder, tanto faz! Aliás, não vou nem torcer. Pra ninguém!"
Perguntei o motivo (ou motivos) de tanta indiferença com o maior torneio de futebol do planeta e ele me respondeu:
"Começando com a decepção que é o Ancelotti. Imaginei que ele chegaria aqui e teria autonomia pra convocar quem ele quisesse. Ao contrário dos técnicos brasileiros, sempre submetidos ao que manda a CBF. Mas, pelos nomes que ele chamou, dá pra ver que faz o mesmo jogo dos outros treinadores."
Procurei argumentar que, em toda Copa é assim. Técnico nenhum agrada todo mundo. Mas teve mais:
"O goleiro não transmite segurança e joga mal com os pés. Um lateral se machucou e ele chamou um volante. Os laterais da direita e da esquerda já são velhos. Não vão aguentar a correria de atacantes jovens. Pro ataque chamou aquele Menino que tá machucado. Nem sabe se vai poder contar com ele e quando. Tá tudo errado".
Torcer contra ou a favor faz parte do esporte. Ou... simplesmente não torcer, também! O jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues uma vez definiu a seleção como sendo a "pátria de chuteiras". Não era algo ufanista, mas uma representação, com uma dose generosa de ironia, do que é o povo brasileiro. Com seus acertos e sonhos, mas com erros e pesadelos.
Os ultraufanistas, ao longo dos Mundiais, usam essa frase para afirmar que o escrete canarinho DEVE ser admirado por todos os brasileiros, que é OBRIGAÇÃO torcer pela seleção; que, quem não torce pelo selecionado, NÃO É PATRIOTA.
Em primeiro lugar, bora lembrar que futebol é esporte. Não é guerra no sentido bélico. Apesar de muitos narradores histriônicos berrarem que numa partida estamos "em guerra" com a França, a Alemanha ou a Argentina. O fanatismo (busca pela audiência...) leva até a dizer com a boca cheia de saliva, que escorre pelos cantos dos lábios: "É muito bom ganhar da Argentina". É aquela obrigação constante de "precisar" afirmar que é "superior".
Em segundo lugar porque não gostar de futebol não significa dizer que "não gosta" do Brasil. A pessoa pode não gostar do esporte, mas é muito patriota.
Dito tudo isso (sei que te cansei...) é importante destacar o comportamento desse conhecido do supermercado. Pra falar que não vai torcer pelo Brasil, cochichou, falou "na miúda", "na encolha", como se tivesse cometendo um crime de lesa-pátria.
Como se corresse o risco de ser xingado por um torcedor pacheco que escutasse.
Torcer ou não torcer. É tua a decisão.
De mais ninguém.
