sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

URUGUAI: DESBRAVANDO A TERRA DOS CHARRUAS (4)

 

CASAPUEBLO: COMO DIRIA VINICIUS, "ERA UMA CASA MUITO ENGRAÇADA"... MAS TAMBÉM MUITO BONITA!

  Carlos Páez Vilaró é o maior artista plástico uruguaio. Pintor, ceramista, escultor, muralista, também foi escritor e colunista de revista. Mais: era empresário. Seu interesse pela cultura africana o trouxe ao Brasil onde se tornou amigo de Jorge Amado e Vinicius de Moraes.
    Inquieto, Vilaró decidiu construir a própria casa (literalmente com as próprias mãos) com a ajuda de pedreiros e de pescadores da península de Vila Ballena entre Montevidéu e Punta del Leste. Isso em 1958, quando o ramo imobiliário não via futuro naquele pitoresco fim de terra. Mas o local é belíssimo e, naquela época, calmo, muito calmo, do jeito que o artista queria pra montar um atelier e cuidar dos seus gatos. Foi construindo aos poucos com a cara, a coragem e as mãos. Deu o nome de "Casapueblo" ( "Casa-vila" ou "Casa-povoado"). Aqui no Brasil, o amigo Vinícius de Moraes imortalizou a moradia com o poema/canção infantil "A Casa": 
    "Era Uma Casa Muito Engraçada/ Não Tinha Teto, Não Tinha Nada/ Ninguém Podia Entrar Nela Não/ Porque na Casa Não Tinha Chão". E assim segue a letra...
    Hoje parte da casa é um museu e parte é um hotel de luxo.
    Amigo de Picasso e de Dali, Vilaró alcançou o reconhecimento internacional. Teve um atelier em São Paulo (!) e morou na Europa e nos Estados Unidos. 
    Mas foi em casa, no Uruguai, que ele viveu um grande pesadelo. No começo da década de 70 recebeu, na Casapueblo, a notícia que o avião em que estava o filho dele, Carlitos Vilaró, caiu na Cordilheira dos Andes. Era 12 de outubro de 1972.  Carlitos fazia parte de um time de rugby que iria disputar um torneio em Santiago no Chile. Mas, devido a uma tempestade muito forte de neve, a aeronave caiu nas montanhas. Dos 45 passageiros, 16 sobreviveram. Entre eles o filho de Vilaró.
    O resgate dos sobreviventes virou uma história conhecida mundialmente: Eles só foram encontrados 3 meses depois do acidente. Muito em razão da persistência de Carlos Vilaró que não desistiu nunca e consultou videntes, parapsicólogos e cartomantes. O artista financiou parte do trabalho de busca e também participou da jornada em busca dos desaparecidos.
    A tragédia virou filme. Carlos Vilaró, que sempre teve fé e acreditou que Carlitos estivesse vivo, escreveu um livro sobre o desastre: "Entre Meu Filho e Eu, a Lua".
    Por contar com a ajuda de tantos voluntários no resgate dos passageiros do avião, Vilaró escreveu no livro: "Eles reafirmam o que Deus nos deixou de herança: Que todos formamos uma única família. Creio que posso confirmar isso. Porque o vivi. E porque, ademais, sei que, quando estamos irmanados, a dor é menos dor."
    Carlos Páez Vilaró viveu até os 90 anos. Morreu em 24 de fevereiro de 2014 na Casapueblo que construiu.
    Carlitos, que hoje está com 65 anos e faz palestras, afirmou na morte do pai:
     "Se realmente há uma frase apropriada a ele, é que descanse em paz. Nunca vi alguém que trabalhasse tanto. É um cara que trabalhou até o último momento. Até ontem. Então, que descanse em paz."
    Em abril de 2019, Carlitos fez uma palestra para profissionais de marketing em São Paulo. Falou sobre a tragédia nos Andes e garantiu:
    "Cada pessoa tem a sua própria cordilheira. Mas o importante é seguir em frente! Atitude e humildade são as duas grandes palavras dessa história."


CARLOS E CARLITOS NA CAPA DO LIVRO


CARLITOS FAZENDO PALESTRA EM SÃO PAULO NO ANO PASSADO



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