"Tenho uma tendência suicida. Mas não seria algo repentino. É por isso que eu bebo. Muito. Dizem que o alcoolismo é um suicídio lento. Esse é o meu caminho". Afirmou o jornalista, poeta, contista e romancista Charles Bukowski (1920-1994) no making of do filme "Barfly" (mosca de bar), de 1987.
Bukowski escreveu o roteiro de Barfly - Condenados pelo Vício - dirigido pelo francês Barbet Schroeder, que conta alguns dias na vida do escritor Henry Chinaski (o alter ego de Bukowski). Pode ser classificada de uma obra "sem-autobiográfica".
Tudo o que marcou a vida de Buk está no filme: a vida marginal (à margem da sociedade...); as noites de bar em bar pelo centro sujo de Los Angeles; o convívio com todos os tipos de caras e com prostitutas. As moradias em espeluncas.
O filme é apresentado por Francis Ford Coppola... a produtora dele, a American Zoetrop, deu apoio à produção considerada de baixo orçamento para os padrões de Hollywood.
Chinaski é interpretado por Mickey Rourke que "está em casa" no papel. Incorpora bem o tipo beberrão, briguento, vagabundo, que não se prende a nenhum emprego. O que ele queria era rosetar...
A cena em que ele conhece Wanda Wilcox ( Faye Dunaway) é ótima: Eles estão cada um numa ponta de um balcão de bar. Chinaski se interessa por ela e caminha em direção à moça. Ele passa por um grupo de homens que bebem nesse balcão. Um dos sujeitos é o próprio Bukowski numa participação anônima, silenciosa e curtíssima.
Buk dizia que não gostava de filmes. Gostava de ler e de escrever. Um dia o diretor de Barfly ligou pra ele da França:
--- "Alô, Charles, aqui é o diretor Schroeder. Queria saber se você escreveria o roteiro...".
Bukowski não deixou ele terminar e desligou.
O diretor insistiu e ligou de novo:
--- "Eu te pago 20 mil dólares..."
Buk:
--- "Quando eu começo a trabalhar?".
20 mil dólares corrigidos em 2025 seriam cerca de 60 mil dólares. Não é uma grande quantia para o cinema. Mas lembremos que era um produção pequena, quase sem caixa...
Outro detalhe: O filme mostra como era a personalidade de Bukowski: Um cara largado, sem preocupações materiais. Por isso os 20 mil mangos foram aceitos de cara...
Barfly também mostra os Estados Unidos como normalmente o país não é visto na telona: O lado maldito, podrão, marginal, sombrio da terra de Tio Sam.
A periferia da vida. Não o glamour. E isso em Los Angeles, a capital mundial do cinema.
Na história, Chinaski é procurado pela editora de uma revista que tem interesse em publicar os textos dele. Até oferece uma casa luxuosa para ele morar e trabalhar. O escritor recusa e diz que aquilo não é a vida dele. Ela tem uma dúvida: Por que ele escreve tanto sobre o sofrimento de pobres se os ricos também sofrem por algum motivo?
Ele responde algo como : Quem será que sofre mais? O pobre ou o rico?
* Henry Chinaski está presente em alguns livros de Charles Bukowski. "Factotum", inclusive, é considerado a autobiografia de Buk.
* Barfly está disponível no YouTube. De graça e com qualidades muito boas de imagem e de som.
* "Eu bebo, eu jogo, eu escrevo" é a maneira simplificada de como Bukowski definia a vida dele.